quinta-feira, 20 de julho de 2023

Sentimentos retidos no coração

Era quase noite na floresta, o feiticeiro preparava a sua refeição num caldeirão de ferro que borbulhava sob o fogo da fogueira. Deu-se conta de ouvir tímidos passos nas folhas secas. Quando olhou viu a rapariga da cidade, desta vez não estava escondida a observa-lo, estava bem á sua frente, tão estática como as árvores que os rodeavam. 
- O que fazes aqui? - perguntou ele, mas ela susteve a respiração.
Estava demasiado nervosa para falar. Antes começou a correr fugindo dele, mas foi atrás e agarrou-a com os braços fortes.
- Responde-me! O que fazes aqui? O que queres?
Quanto mais ele tentava obter respostas mais ela tremia. Então largou-a, a rapariga estava tão nervosa que as suas pernas perderam a força para se erguer e ela cai no chão desamparada.
- Vai-te embora, a floresta é perigosa de noite. - disse sem que dela viesse alguma resposta. - Não ouves o que digo?
Ela levantou-se e deu mais um passo em frente e ele virou-se varinha em punho.
- Já disse para te ires embora! - bradou em tom intimidante com olhar ameaçador.
Ela nunca o tinha visto assim, tão zangado. O seu coração quase que lhe saltava do peito, a respiração ofegante impedia-a de soltar qualquer palavra. Engoliu em seco umas quantas vezes até que por fim conseguiu dizer..
- Admiro-te desde o primeiro dia em que te vi. Não sei explicar! Sinto esta estranha ligação a ti e não consigo combate-la. Sei que de alguma forma vieste lutar contra a bruma negra mas TU és a bruma negra que me destrói! Em silêncio por dentro, cada olhar teu sem dizer uma palavra, é uma farpa no meu peito, que sangra e dói sempre que te vejo, sem poder falar contigo!

O feiticeiro desviou o olhar e ficou sem palavras, arrumou a varinha e comtemplou a floresta, agora era ele que não dizia palavra pois não esperava ouvir tudo aquilo. Ela falou, pela primeira vez ouvia a sua voz e não tinha resposta para lhe dar, pois não esperava ouvir uma declaração tanto sentida e ao mesmo tempo tão cheia de ódio. A fogueira crepitava e o caldeirão ainda borbulhava, para além do vento nas copas das arvores, este era o unico som que se ouvia em toda a  floresta.

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